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Gastronomia por Roberta Sudbrack
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12/02/2008 ..

Malas...



Sou péssima em arrumá-las, por sorte sempre tenho alguém em quem posso confiar cegamente para fazer isso. Nesse caso, sei que ao chegar no destino terei o direito de permanecer calada e não reclamar de nada que possivelmente possa ter sido esquecido! Ônus e bônus!

Na volta sempre me parece mais fácil, acomodo tudo lá dentro do jeito que Deus permitir e sem me preocupar demais com a ordem dos fatores. O que sempre me preocupa mesmo são as minhas facas, estão velhinhas e descascadas, “mas eu me mordo de ciúmes”! É sempre uma angústia saber se chegaram sãs e salvas.

A poucos dias de embarcar para a Espanha, ainda não sei se além das facas terei que levar uma grelha de ferro fundido. Aparentemente, dos pedidos que os chefs palestrantes fizeram, esse foi o mais excêntrico! Nem o quiabo que não é nada comum lá por aquelas bandas causou tanto furor. Além do fato de eu ter dispensado todos os outros apetrechos típicos da cozinha molecular capazes de desconstruir qualquer coisa, claro!

Diante desse impasse, só duas coisas estão na mala até então: minhas velhas facas e a vontade de construir uma bela história! Quanto ao resto, as roupas e a grelha, até a hora do embarque a gente decide!


Até!
13/02/2008 ..

Verdade...



Para mim é sempre bem-vinda, não consigo me sentir bem sem ela. Tenho que andar com ela estampada no rosto, nos gestos, nos movimentos, nos pratos... As coisas só fazem sentido assim para mim. Se não puder ser assim, eu passo. Não importa o que irei perder ou deixar de viver. Certamente não teria o mesmo sabor.

Ontem uma amiga querida que foi me visitar no restaurante – e saiu sem se despedir, o que é inaceitável! – me contou que lê regularmente as minhas crônicas de uma vida moderna, numa cozinha moderna! E perguntou-me porque eu estava tão irritada no carnaval? Respondi: “Você percebeu? Por causa da minha Mangueira, claro!” Outro dia uma cliente também chegou dizendo: “Hoje você não estava para conversa no blog, heim! Gosto do que você escreve por isso, a gente consegue sentir exatamente o que está se passando dentro de você, é sincero, como a sua comida.”

Nada pode me emocionar mais. Expressar os sentimentos com sinceridade, usar as palavras com liberdade – sem esquecer jamais a coerência, a responsabilidade e o cuidado! – pode, quem sabe, incentivar o uso indiscriminado da verdade pelo mundo!

Benefícios que só aqueles que a exercitam diariamente, ou pelo menos procuram por ela com vontade, poderão sentir.

Até!


14/02/2008 ..

Quase lá...



Mala quase pronta. Quase! Ainda restam dúvidas... Só na mala! Na vida, na cozinha e nas decisões vou sempre em frente sem medo. E se o medo vier, me atiro sem pára-quedas, foi sempre assim.

E ser assim sempre me fez feliz, pode doer, e às vezes dói, mas todo o esforço é válido quando se acredita no propósito. Mais importante ainda do que me fazer feliz, na minha profissão - ou pelo menos tão importante quanto - é fazer feliz. Essa é a linha tênue que rege as nossas vidas de artesãos dos porões, tentar dosar o nível de doação diária aceitável ao corpo humano, e sempre, sempre mesmo, exceder! O excesso de emoção diária despendido pelo nosso nível de doação é o nosso combustível. Sem ele paralisamos, estagnamos, morremos. Ser por inteiro é a única maneira que conheço para ser verdadeiramente cozinheiro.

Mas ser por inteiro nem sempre é das tarefas mais fáceis. Assim como o simples, que no fundo é extremamente complexo – vejam o que uma simples grelha de ferro causou de confusão na Espanha! -, requer saltos ousados, corajosos, perigosos até! Requer confiança absoluta, doação mais que profunda, convicção e garra acima de tudo. Requer ser por inteiro diariamente, não importa o tamanho da onda.

No final, mesmo levando em conta os arranhões, ou os caldos, se o trajeto foi percorrido dessa maneira, e se à noite, como bem dizia o meu avô, você conseguiu deitar a cabeça no travesseiro e dormir, é porque valeu a pena.

Até!
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